
O noticiário político tem surpreendido até os brasileiros mais calejados, que já viveram episódios nada triviais, como um golpe militar, o confisco da poupança, uma inflação anual de 2.477% e um impeachment. Na atual maré de incertezas, só uma coisa parece certa: qualquer expectativa pode estar redondamente errada.
Todas essas mudanças exigem que o investidor incorpore uma nova postura para encarar transformações repentinas e constantes no mercado. Mas, até que ponto tudo isso é inédito e deve ser considerado como tal? E como guiar as decisões financeiras para passar por essa turbulência toda sem arranhões? EXAME.com consultou economistas e profissionais de mercado para buscar essas respostas. Confira a seguir.
Contexto
Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, acredita que, de fato, o Brasil nunca passou por situação parecida antes. “A gravidade da crise econômica é inédita e também vemos um ineditismo no quadro político: o governo simplesmente perdeu a capacidade de governar”, diz.
O consultor de investimentos Paulo Bittencourt destaca que a bolsa e o mercado de câmbio têm oscilado do inferno ao céu a cada nova notícia, o que coloca o investidor em uma posição delicada e cercada de altos riscos.
“Não existe um arcabouço de fundamentos para guiar o investidor agora. É como se ele estivesse em um cassino e só porque viu as últimas rodadas apostasse nas bolas pretas ou vermelhas: se ele repetir esse processo infinitamente ele terá 50% de chances de acertar ou errar, mas o seu caixa vai acabar porque os recursos são finitos”, afirma o consultor.
Se antes os investidores trabalhavam com dados como expectativa de inflação, juros e PIB para tomar suas decisões, agora é necessário trabalhar com uma nova variável: a imponderabilidade.
Ainda que o noticiário sempre traga surpresas, as revelações da Operação Lava Jato, a divulgação dos polêmicos grampos telefônicos do ex-presidente Lula e os rumores sobre impeachment parecem ultrapassar o nível do inesperado.
Zeina Latif concorda que a política tem ditado as regras do jogo no mercado, mas em sua opinião nada disso aconteceria não fosse a crise econômica. “O país poderia estar cheio de escândalos, mas se estivesse crescendo essas questões ficariam em segundo plano. Em 2015, o país estava indo para o buraco e os partidos estavam discutindo picuinhas. Era razoável que o setor produtivo e a sociedade reagissem. A economia em crise empurra para soluções políticas”.
A famosa frase de James Carville, estrategista de Bill Clinton que apostou que George Bush - que gozava de alta popularidade após vencer a Guerra do Golfo - perderia as eleições americanas de 1992 por causa da recessão resume o sentimento que paira no ar: “É a economia, estúpido”.
Os indicadores não deixam muitas dúvidas: a economia brasileira está vivendo alguns de seus piores anos. Ricardo Amorim, economista e diretor da Ricam Consultoria, compilou dados do IPEA e do IBGE que mostram que, se a queda de 3,6% no PIB esperada para este ano se concretizar, a economia registrará seu pior resultado médio em um triênio desde 1900.
No gráfico abaixo, elaborado por Amorim, é possível ver que os triênios iniciados em 1930, 1980 e 1990 registraram uma queda média do PIB de 1,4%, 2,1% e 1,3%, respectivamente. São resultados melhores do que a queda média esperada de 2,5% para o triênio que se encerrará em 2016.
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Triênio encerrado em 2016 pode ser o pior desde 1900










